16 de março de 2010

A pele negra de Barack Obama é apenas um disfarce


A tragédia que se abateu sobre o Haiti acabou por trazer à tona, para os olhos de todo o mundo, a situação da mais completa miséria da população haitiana e a falta de estrutura daquele pequeno país. Obviamente que não podemos apontar culpados pelo fenômeno geológico, mas pelas questões sociais, políticas e econômicas, não há dúvidas quanto aos que são responsáveis por esse permanente estágio de pobreza e miséria em que o Haiti se encontra imerso.

Foi naquele local que Cristóvão Colombo desembarcou pela primeira vez nas Américas. O território foi posteriormente dividido e então surgiram a República Dominicana e o Haiti. Com toda a sua população indígena dizimada pelos colonizadores europeus, o Haiti recebeu os negros vindos da África na condição de escravos. Foi uma das colônias mais lucrativas para a França na condição de produtores de açúcar. O Haiti foi também o primeiro país da América Latina a se tornar independente (1804) e a acabar com o sistema escravista. Mesmo os Estados Unidos, que se tornou independente antes do Haiti, em 1776, ainda manteve o escravismo até 1865, quando terminou a sua Guerra de Secessão. O levante escravista, que trouxe a independência do Haiti, derrotou de forma incontestável e humilhante o grande e poderoso exército de Napoleão Bonaparte. Derrota essa que os brancos europeus jamais iriam esquecer e muito menos perdoar. Com a derrota inquestionável e irreversível, os colonizadores começaram a temer pela possibilidade do exemplo haitiano ser seguido pelas outras colônias. Impuseram então, ao Haiti, um bloqueio comercial: ninguém podia comprar do Haiti e nem vender nada para ele (alguma semelhança com o bloqueio imposto a Cuba?). Podemos, portanto, considerar que a invasão européia, iniciada por Colombo, e a posterior colonização francesa, foram as duas primeiras desgraças que se abateram sobre aquele local que depois ficaria conhecido como Haiti.

A terceira desgraça que se abateu sobre aquele país foi a invasão dos Estados Unidos em 1915; esta selaria de vez a sua sorte. Os Estados Unidos permaneceram governando o Haiti até 1934, mas após esse período os haitianos jamais se livrariam das intromissões estadunidenses em sua política interna. Regimes despóticos e ditatoriais foram patrocinados financeira e politicamente pelo Império do Mal contra a soberania haitiana. Algumas dessas ditaduras entraram para a história como as mais violentas, sangrentas e corruptas de toda a América Latina.


O que estamos assistindo nesse momento, portanto, após essa tragédia do terremoto que deixou mais de cem mil mortos e incontáveis feridos, desabrigados e famintos é exatamente o desdobramento de tudo isso que foi colocado aqui. Basta se perguntar, por exemplo, o que foi que os Estados unidos fizeram logo após o terremoto? A resposta: enviou cerca de dez mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear; ocupou portos e aeroportos e tomou o palácio presidencial com uma tropa de paraquedistas. Ou seja, numa situação de tamanha calamidade, onde impera a fome, a sede, a falta de abrigo, o risco de epidemias, etc., os Estados Unidos armam uma operação de guerra e simplesmente ocupam o Haiti militarmente. Travestida de ajuda humanitária, as forças armadas estadunidenses mais uma vez invadem o Haiti no intuito de controlar o país. Tudo isso, claro, sem nenhum pedido ou algum tipo de comunicação a ONU. Se alguém ainda nutria alguma esperança em relação ao governo de Barack Obama no que diz respeito a uma política menos belicista, mais humanitária e pacífica, é hora de acordar para a realidade...

Em pouco mais de um ano de governo, Obama aumentou o contingente militar no Afeganistão, não retirou as tropas do Iraque (promessa de campanha), apoiou o golpe em Honduras, reativou a Quarta Frota (depois de mais de 50 anos desativada) para patrulhar a Atlântico Sul, colocou mais sete bases militares na Colômbia, ratificou e incrementou o discurso belicista contra o Irã e agora ordena essa invasão covarde, cínica e repugnante contra o país mais pobre e miserável da América Latina. Não há dúvida de que isso é a mais pura e pujante política imperialista na sua tentativa de resgatar, no discurso e na prática, a política do Big Stick (o grande porrete). O pior é ainda assistirmos a grande mídia latina americana (hipócrita e subserviente aos interesses dos Estados Unidos) declarar a todo o momento que a grande ameaça para os países da América Latina é o presidente da Venezuela, Hugo Chaves.

Com tudo isso, só nos resta concluir que quem continua no comando do governo estadunidense são aqueles que compõem o que D. Eisenhover chamou, em seu discurso de despedida da presidência em 1961, de Complexo industrial-militar. É o lobby desse complexo que decide as diretrizes da política estadunidense. Quanto a Barack Obama, infelizmente fica mais do que constatado que a sua pele negra é apenas um disfarce.
Créditos:
Renato Prata Biar; historiador e pós-graduado em filosofia; Rio de Janeiro

http://www.textolivre.com.br/component/content/article/22803-a-pele-negra-de-barack-obama-e-apenas-um-disfarce

7 comentários:

Blog Protozooário disse...

Interessante!
Gostei do teu blog...
sucesso aii ;D

da uma visitinha no meu tbm http://protozooario.blogspot.com/

Abraço!

Tatiana disse...

Vc usou o adjetivo certo Jordânia: repulguinante. É incrivel como em meio a tantos problemas, internos e externos, eles ainda querem se ocupar de mais um país. Barak Obama realmente se apresentou incompetente em suprir as esperanças do mundo que esperava um novo presidente diferente do antigo Bush. Não é a toa que ele é da oposição, um desejo claro de manifestação de mudanças dos estadunidenses que convertido em voto foi totalmente boicotado pelo presidente empossado. Sinceraente não me surpreendeu em nada quando li que além de querer ocupar eles tomaram conta do aeroporto e não permitiam o desembarque de remédios, ajuda ou qualquer coisa que não fosse derivada dos EUA. Um verdadeiro absurdo. Se já era caro pra mim a má intenção e a manifestação da sua sede de imperialismo quando chegaram, ficou translúcida depois de outras atitudes que corroboraram essa ideia.
Muito relevante o post. Vc sempre tratando de assuntos sérios e importantes.
Parabéns.

Pedro SOmbra disse...

Eu, sinceramente, gostaria de comentar algo. Mas é de ficar sem palavras tamanha brutalidade humana por parte dos nossos colegas estadunidenses. Essas pessoas são alienadas, fanáticas religiosas e nacionalistas ao extremo, além de arrogantes e burros. Dizem que estão fazendo trabalho humanitário quando estão invadindo; enquanto isso a imprensa arma um circo perante uma garotinha morta. Que os EUA financiavam a guerra tudo bem, mas agora dizer que combatem ao terrorismo é a pior coisa que já ouvi dizer. Quem deveria estar escondido numa caverna era o Obama!

Pobre esponja disse...

Não concordo totalmente, mas desde que ele se elegeu, conclui duas coisas: a primeira é que é muito legal ter um presidente negro na América; e a segunda é que, quebrado este tabu, ele deve ser cobrado como todo e qualquer presidente - mas duvido que o será.

abç
Pobre Esponja

Tathynha™ disse...

Não estou totalmente de acordo, sim os EUA tem mania de ser o lobo em pele de cordeiro, mas não acredito que lá seja dessa forma...
Acredito que Obama terá muitos desafios pela frente e já esta sendo cobrado e criticado de diversas formas...

Danny Reis disse...

Concordo com sua opinião...
Você tem razão..

pega ai! disse...

gostei do seu blog bem escrito.